terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Sobre ficar intima da saudade



Eu não sabia ao certo o que era saudade até sobrevoar oceanos e vir parar do outro lado do mundo. Ou sabia o que eram umas saudades rasas: daquele amigo que demoro meses pra encontrar, da minha família que mora em outro Estado a duas horas de avião, daquela amiga que acabou saindo da minha vida porque isso, às vezes, simplesmente acontece.

Não me entenda mal: todas as saudades doem e só a gente sabe da dor de cada saudade. E eu sabia das minhas. Mas eram saudades passageiras. Saudades “dá-e-passa”. Aquela saudade que a gente lembra quando vê uma foto no Facebook e descobre que não sabe mais muito do amigo, ou quando recebe uma mensagem de um parente distante, ou ainda quando acaba escutando uma música e aquela pessoa nos vem à mente. Essas saudades doem, mas a gente vai vivendo.

O problema, para mim, pelo menos, é essa saudade que fica.

É essa saudade que acorda comigo e me faz lembrar do meu cachorro enquanto eu tomo café. E vai conversando comigo no trem, me fazendo escutar as conversas que eu tinha com meu pai quando ele podia me levar ao trabalho. A maldita saudade senta ao meu lado nas aulas e eu quase posso ouvir as risadas que eu tanto dei durante a escola e a faculdade com as minhas amigas. Ela vai para festa comigo e, se eu fecho os olhos bem rápido, posso me ver no meio dos meus amigos gritando “minha música” naquela balada sertaneja. E ela dorme comigo, me recordando que minha mãe não está por perto para aquele colo que só mães sabem dar depois de um dia difícil.

É dessa saudade que eu falo.

Da saudade que eu sei que também vou sentir quando for embora. Do país que me recebeu tão bem, das pessoas que a gente vai conhecendo todos os dias e vai formando esses laços fortes e intensos, das risadas e das lágrimas que a gente divide com quem entende o que a gente passa porque está passando pelo mesmo. É uma saudade que eu sei que veio pra ficar. Que eu posso voltar e abraçar meus pais, meu irmão, todos os meus amigos, minha família. Ela vai ser minha amiga íntima para sempre. Porque vai ter sempre algo de que eu vou sentir falta do lugar que estou deixando.

É claro que a gente vive. É claro que a gente se acostuma (a gente se acostuma com cada coisa, não é?). Mas eu acho que nunca fica fácil. Que nunca dói menos. Que nunca passa. Vai ser desse jeito a partir de agora: eu volto e sinto falta daqui; eu fico e sinto falta de lá. Partir, às vezes, é um caminho sem volta. E a gente tem que aprender a viver assim: uma parte da gente pra sempre em transição.

Karine Rosa.

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